Jovem educador amazonense tem projeto selecionado para Conferência Internacional da Aids no Canadá



AMAZONAS| O jovem amazonense e educador comunitário Gabriel Mota* de 29 anos, foi selecionado com uma bolsa para participar da 24ª Conferência Internacional da AIDS, através de atividade cultural proposta na Vila Global e Programa de Juventude, onde jovens lideranças propõem atividades que realizam em suas comunidades, em relação à redução de impactos do HIV e Aids, em Montreal, província de Quebec no Canadá.

O evento acontece entre os dias 29 de julho a 2 de agosto e contará com diversos convidados como pesquisadores, cientistas, ativistas, especialistas em políticas e líderes comunitários. Estes oradores ilustres destacam questões e respondem às perguntas dos delegados sobre os mais recentes avanços na resposta no campo do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV).


Na Conferência serão apresentados painéis, workshops, rodas de conversa, mesas de debate e outras metodologias pelos participantes.


Entre a preparação para sua viagem e as atividades como educador da rede pública de ensino, Gabriel Mota tirou um tempo e conversou com a nossa equipe na ultima quinta-feira (19/05), onde detalhou como foi montado seu projeto e suas aspirações futuras. Acompanhe a entrevista.

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Sabemos que todo trabalho de pesquisa surge de uma curiosidade, uma ideia, como surgiu a ideia para propor a atividade na Conferência?


"Eu iniciei o trabalho com Educação Comunitária em abril de 2018 na lá dentro da Fundação de Medicina Tropical através do projeto ImPrEP, projeto este que visava implementar no SUS a profilaxia pré-exposição ao HIV, que trata-se de um comprimido que tomado diariamente evita que a pessoa tenha uma infecção por esse vírus. O projeto iniciou em 2018 até o ano de 2021".

...."E teve como resultados de hoje existir pelo menos seis lugares, ou seja, 6 clínicas públicas em Manaus que oferecem a 'PrEP' para quem procura o atendimento, sendo que a partir daí vieram os outros projetos".


- "Dentre esse projetos, realizamos o 'Projeto de Comunicação' que a gente fez parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2021, onde foram feitos os materiais gráficos que comunicassem a população alvo da 'PrEP’ que são homens gays bissexuais, população trans, pessoas privadas de liberdade e profissionais do sexo.

E no final de 2020 também nós iniciamos o 'Mosaico' que é o estudo Clínico que está verificando se um regime de vacinas é eficaz e segura para prevenir o HIV. Sendo esses os três principais projetos que atuei dentro da do IPCB- Instituto de Pesquisa Clínica Carlos Borborema".


Documentário, 'Bora Combinar' ( assista no final da matéria)


Motta destaca que após a analise dos resultados foi montado um documentário em parceria Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), onde usuários da 'Prep' na cidade de Manaus contam suas experiências, seus desafios e os estigmas existentes durante o uso da medicação. Como ele próprio relata a importância da apresentação do documentário na conferencia.

"....É justamente uma atividade de exibição desse mini documentário que eu propus para para 24ª Conferência Internacional de AIDS que vai acontecer na cidade de Montreal no Canadá e foi aprovado, é o que propus, esse documentário como uma forma de levar e elevar o nome de Manaus a nível internacional para mostrar que nós estamos dado uma resposta à pandemia de HIV/Aids e que também, ainda há muito que avançar e esses avanços a gente vai discutir através das trocas, que vão ser feitas nas oficinas que será realizada após a a exibição do filme", destaca.


Pré-Conferência e a Conferência Internacional de AIDS


Gabriel relatou o que é o evento e como vai ser a sua atuação in loco-


"A Conferência Internacional de AIDS, é uma das programações da International AIDS Society que é a associação internacional de AIDS, ela realiza vários eventos e agora vai acontecer a 24ª Conferência Internacional de AIDS, trata-se de um evento que reúne pesquisadores cientistas e profissionais em geral que trabalham no campo de atuação do HIV buscam uma resposta para o HIV não apenas na prevenção, mas também no tratamento".

O evento acontece a cada dois anos em um país diferente, dessa vez foi escolhida cidade de Montreal no Canadá, entre os dias 28 de Julho e 2 de Agosto.

Mas o jovem educador e ativista chega dias antes para participar da Pré Conferencia, onde será realizadas apresentação de painéis, oficinas workshops, outras metodologias para abordar como tem sido feito pesquisas e atuações ao redor do mundo inteiro em relação ao HIV a AIDS.


Politicas Públicas e o descaso pelo Governo Federal -


Em seu trabalho, Gabriel faz duras críticas pela falta de investimento em políticas públicas na área de prevenção e tratamento, relata a extinção do departamento especifico ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

"Essa ida até o evento é importante porque ela coloca o Amazonas em evidência no que diz respeito as políticas públicas. O Amazonas ainda recebe de verba do governo federal mas infelizmente no Brasil o atual governo desmontou a política pública de combate à AIDS, antes havia um departamento específico para cuidar dessa questão e também das outras infecções sexualmente transmissíveis. Mas ele foi desmontado. Ainda que haja repasse para os estados executarem essa política de combate. Quando se fala de combate, fala-se tanto prevenção como o tratamento do HIV", revela.


O tratamento e as estruturas de poder-

Mota estacou que o vírus pode ser controlado por meio de medicações, livrando o paciente de internações futuras e até mesmo do óbito.


"Ainda é muito sério, porque o HIV é um vírus pode ser controlado por meio de medicações, mas principalmente através de intervenções sociais e nas estruturas institucionais, só que a gente ainda encontra uma estrutura institucional muito preconceituosa, muito conservadora, no que diz respeito a promover novas formas de prevenção, a adesão do usuário a novas formas de tratamento e principalmente implementar novas medicações que estão sendo usadas no restante do mundo.", relata.


Sobre as parcerias, entre o poder público ( Estado e Prefeitura) outros setores da sociedade, Gabriel destaca a falta de dialogo entre ambos, e destaca que a importância dessas parcerias para que se chegue nos usuários muita das vezes sem informação.


“Os repasses como eu mencionei são feitas anualmente para o estado do Amazonas. Mas eu acredito que ainda falta um pouco do diálogo entre o poder público e o terceiro setor por meio das ONGs (Organização Não Governamental) para executar projetos, porque muitas das vezes o terceiro setor, ele não consegue alcançar as pessoas que de fato precisam da informação, tanto da prevenção quanto ao tratamento. Porém, ainda há uma certa resistência do poder público, principalmente da do Governo do Estado em trazer as ONGs que atuam nessa área para dar esse suporte com o conhecimento, para que chegue ainda mais longe dentro das diversas comunidades".


A realidade das pessoas em quadro de AIDS, é preocupante, reafirma Gabriel, é preciso que a educação e a informação sejam a base para que as pessoas não chegue à uma situação tão crítica, vindo lotar os leitos da Fundação de Medicina do Amazonas.


“A gente está em pleno ano 2022 com uma indicação muito boa, onde podemos dizer que as pessoas vivendo com HIV, entrem em um quadro de AIDS. Isso ainda tá acontecendo, as pessoas estão entrando em quadro AIDS por causa do preconceito, com o preconceito, as pessoas não buscam o tratamento e, sem buscar tratamento, elas ficam doentes e acabam indo parar nos leitos dos hospitais e morrendo".

"Isso é um retrato clássico, o que está acontecendo dentro do Tropical. E isso ai não pode mais acontecer, as pessoas não têm que entrar mais em quadro de AIDS. Mas para que isso aconteça, é necessário que a gente, consiga quebrar o estigma dentro da sociedade, por meio, principalmente da educação, é aí o papel da Educação Comunitária: levar essa informação de maneira pedagógica, e de maneira fácil para as pessoas".


Contribuição-


O jovem educador e ativista se entusiasma e oferece à sociedade sua contribuição.

"A contribuição que eu espero trazer dessa conferência é o conhecimento e a multiplicação desse conhecimento, não é algo que eu quero reter só para mim, assim como eu vou compartilhar nossa experiência em Manaus de enfrentamento ao HIV-Aids, eu pretendo aprender bastante sobre como as outras comunidades ao redor do mundo tem dado essa resposta. Aqui no Brasil, já existe pesquisa que indica que o maior número de casos de infecção está entre a população heterossexual.


Na África as principais atingidas são as mulheres; então cada região do mundo o HIV , atinge uma população diferente, então eu quero fazer um compilado: aprender, com esses outros educadores comunitários, com essas pessoas que fazem pesquisas, com os cientistas e trazer essa informação para o Estado do Amazonas, para ver se a gente consegue acelerar esse processo de enfrentamento ao HIV/ AIDS, pensando em formas de coalisão com o poder público, fortalecendo as ONGs que trabalham e atuam, levando essa informação para as comunidades e periferias, insistindo na formação continuada de médicos enfermeiros e todos os outros profissionais da área de saúde para ter conhecimento sobre prevenção e tratamento e adesão a esse tratamento".


O papel do Educador na escola-


Gabriel firma o compromisso do educador nesse processo, tendo como base a educação, a aprendizagem e a informação.


"E como professor eu não posso deixar de dizer que é necessário investir na educação e sexualidade, para que os jovens cheguem na vida adulta e iniciem a vida sexual sabendo a maneira certa de se prevenir, e até mesmo de tratar, caso já tenha na vida algum tipo de infecção pelo HIV e das outras infecções sexualmente transmissíveis, então é colocar o Amazonas e a Amazônia em evidência para falar que nós estamos dando uma resposta..., Ainda temos muito que avançar e através dessa troca de conhecimento com pessoas de diversas partes do mundo, nós podemos trazer conhecimentos compartilhados para Manaus".

O Educador Comunitário-


Como professor da rede publica de ensino Gabriel Mota é um ativista preocupado diariamente com a 'onda' de infecções e agravamento da doença, mas por meio das suas atividades pode ajudar a reverter essa situação colocando-se a disposição da sociedade.


"E como educador comunitário meu papel é fazer educação acontecer, conversar com os diversos setores da sociedade, fazer panfletos, documentários, sensibilização, advogar pelas causas para que a pauta não seja esquecida e consequentemente as pessoas não morram de uma doença que hoje tem tratamento, inclusive a ciências afirma que a pessoa que vive com HIV, se ela fizer o tratamento certo, esse vírus, torna-se indetectável e consequentemente não é transmissível via sexual, e muita gente não sabe disso.

Enquanto essa informação não chegar a todos os cantos possíveis, a gente vai continuar tendo que mitigar os efeitos do IST e essa contribuição que eu quero trazer para a sociedade brasileira, combater o HIV não apenas através das questões biomédicas, mas também das questões estruturais e das questões sociais. Nós precisamos avançar rumo uma prevenção e arrumar um tratamento que de fato leve a cura total" , finaliza.


Veja o documentário- 'Bora Combinar':



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* Gabriel Mota tem 29 anos é formado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atualmente é professor concursado da rede pública de ensino, atua como Educador Comunitária na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM) por meio do Instituto de Pesquisa- Clínica Carlos Borborema, (IPCCB) instituição responsável por projetos e estudos clínicos no campo de HIV.-AIDS.